segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Relembrando um gênio chamado Alain Dellon

Alain Dellon
Neste trabalho em especial, segue uma homenagem a figura de Alain Dellon, um jovem com espírito revolucionário, que marcou em Araruna uma geração, com sua personalidade forte, ele continua vivo até hoje nas lembranças de muitos que o conheceram, á exemplo do poeta e agitador cultural Jairo Lima, possuidor de um valor artístico inestimável, que na infância acompanhou Allain Dellon, do qual se considera uma espécie de "seguidor".

Alain utilizava suas palavras como balas em uma arma de fogo, em benefício de uma sociedade baleada, diante de tantos entraves que alienam e transformam  a população em meros coadjuvantes de suas própria histórias. 

Particularmente tenho muita admiração por Alain Dellon, pela forma que ele usava as palavras, embora tenha apenas o avistado uma vez na vida, justamente quando eu (Wellington Rafael), sentado em frente minha casa na infância, me deparo  a noite com um vulto escuro voando alto, como numa alucinação, que se transforma num pesadelo, ao ver o jovem até então desconhecido, caindo de moto em minha frente e em instantes seguintes chegando ao falecimento.

Os textos que se seguem são de autoria de Jairo Lima, escritos a mais de uma década, e que agora se fazem presentes a uma justa homenagem a este bravo guerreiro que foi Alain Dellon com virtudes e defeitos.


UM GÊNIO CHAMADO ALAIN DELLON

  No início da década de 90 em Araruna, apareceu um certo cacimbense, que com seu talento incrível, sua ousadia inquieta e seu carisma, não poderia deixar de causar revoluções e provocar polêmicas em nossa cidade com seus projetos, onde sempre procurava propagar suas ideologias. Com tais atitudes, o rapaz muitas vezes pagava altos preços. Porém, em momento algum se intimidou e deixou de levantar sua bandeira, pois tinha consciência de que sua luta não era em vão, percebeu que pouco a pouco, congregava seguidores.

Alain interpretando um bêbado, década de 1990.
Fonte: Jairo Lima.

O MENINO E O ARTISTA

Conheci Alain Dellon de Pontes Costa no ano de 1991, quando, eu ainda menino, freqüentava os estúdios da recém fundada Rádio Serrana. Nesse período Alain Dellon, um jovem de Cacimba de Dentro que acabara de chegar para reforçar o time de locutores da mais nova emissora de rádio da região, juntamente como o já criado Grupo Serra de Teatro de Araruna, fazia sucesso com a encenação da Paixão de Cristo daquele ano e com a mega produção da rádio-novela “Amor Cigano” e da minissérie “Filhos do Silêncio”, cujas foram ao ar através da Rádio Serrana AM e tinham uma grande audiência não só em Araruna, mas em cidades circunvizinhas do Rio Grande do Norte.


Alain Dellon em uma estação radiofônica, década de 1990.
Fonte: Jairo Lima.
 Minha primeira oportunidade de conversar com o teatrólogo e de falar sobre a admiração pelo seu trabalho se deu numa certa manhã, quando eu fui acompanhar seu programa de rádio “ao vivo e a cores” no estúdio “B” da Rádio Serrana.  Ao final do programa, Alain me pediu para lhe ajudar levando até a casa de Julieta de Lourdes (local onde o mesmo se hospedava aqui em Araruna, logo quando o mesmo veio trabalhar na cidade) algumas sacolas, eram frutas que tinham sido levadas por um ouvinte seu da zonal rural, se não me engano eram mangas. Saímos e no caminho conversamos bastante e ao chegarmos à casa de Julieta recebi de Alain Dellon algumas moedas como gorjetas pelo meu trabalho e a promessa que iria fazer parte do Grupo Serra de Teatro. A promessa se concretizou e poucos meses depois eu fui convidado para fazer parte do elenco da minissérie de rádio “Um homem, uma mulher” e, no ano seguinte, participei do espetáculo da Paixão De Cristo.

Nessa altura Alain Dellon, por desentendimento com a administração da Rádio Serrana, tinha deixado a emissora, porém com isso não se abateu e continuou sua caminhada rumo aos seus ideais, ainda bem mais fortes e com sua sede de justiça mais aguçada do que nunca. Nesse clima de revolta Alain Dellon montou a polêmica peça “Podres Poderes”, que tinha como trilha sonora a música homônima de Caetano Veloso, cuja peça teatral eu, ao lado do próprio Dellon, Júlia Carmem e Marcelo Ramos encenamos no Clube 14 de julho em Araruna - PB, e no Tacima Clube em Tacima - PB e na Cidade de Dona Inês - PB.  


ALAIN DELLON NA POLÍTICA ARARUNENSE


O jovem Alain discursando na sede do PT ararunense, década de 1990.
Fonte: Jairo Lima.
Em 1992, ano de eleições municipais, Alain Dellon entrou para a política e disputou pelo Partido dos Trabalhadores uma vaga para vereador na Câmara Municipal de Araruna. Porém, apesar de seu carisma e seu trabalho durante a campanha, não conseguiu votos suficientes para se eleger.

Perseverante, Alain Dellon esperou quatro anos e novamente em 1996 se lançou candidato pela coligação PT/PSB, só que dessa vez para disputar a vaga de prefeito, como vice tinha a colega de teatro Valnete Morais (Valnete Morais, falecida em 2004, foi uma das fundadoras do Grupo Serra e grande amiga de Dellon). Alain Dellon, não conseguiu a prefeitura, mas para os muitos que apostavam que sua votação seria um fracasso, o jovem candidato, somente com a cara, a coragem e a ajuda daqueles mais carentes que viam em sua figura simples uma esperança de dias melhores, conseguiu quase mil votos.


O maior espetáculo de Paixão de Cristo que Araruna já assistiu.


Alain Dellon junto de seu grupo teatral em encenação
 da Paixão de Cristo, entre eles Jairo Lima, década de 1990.
Fonte: Jairo Lima
Passadas as eleições de 1996, Alain Dellon dedicou-se unicamente a seu programa na Rádio Integração do Brejo da cidade de Bananeiras, para onde viajava em uma moto cedida pelo pároco de Araruna Pe. Cristiano Mufller, e também ao teatro, mais precisamente a Paixão de Cristo. Lembro-me que em 1997, o espetáculo foi realizado no Estádio Demóstenes da Cunha Lima, para uma multidão de espectadores que lotaram por completo as arquibancadas daquele estádio de futebol, onde muitos se emocionaram com o tom de realidade mostrado em cena pelos atores. Arrependo-me até hoje de não ter participado daquela Paixão de Cristo que seria a última da vida do grande Alain Dellon.

O espetáculo contou com vários atores de fora, tendo como principais exemplos o alemão Sebastian, que interpretou Jesus Cristo e o guarabirense Elias dos Santos que encenou o diabo. Alain Dellon, o astro principal, naquele ano interpretou o personagem Pilatos e surpreendeu toda platéia quando surgiu em cena montando um belo cavalo. Sem dúvidas nenhuma Araruna vivia seus “dias de Nova Jerusalém”.  


Morre o homem, nasce o mito

Era início de 1998, Alain Dellon e o Grupo Serra já começavam os primeiros ensaios para a Paixão de Cristo daquele ano, onde pretendiam repetir a emoção e o sucesso do ano anterior. A novidade de 98 era que o espetáculo retornava para a Praça Rio Branco, Centro da cidade e local das primeiras apresentações do grupo. Porém, tudo não estava para acontecer conforme o esperado, pois uma fatalidade estava a caminho daqueles jovens.



No início da noite de 22 de março, um domingo como outro qualquer, Alain Dellon, após passar o dia inteiro com um grupo de amigos bebendo e se divertindo em uma cachoeira na zona rural de Araruna, pilotava sua moto no Centro da cidade para o Bairro da Palha, quando, ao passar no cruzamento da Rua João Pessoa com a Dr. Castro Pinto, por está em alta velocidade e a rua pouca iluminada, chocou-se violentamente com um monte de entulho que estava jogado em via pública e caiu com o rosto no calçamento, onde por não está usando capacete se machucou gravemente, chegando a ser socorrido no Hospital Maria Julia Maranhão, mas que nada adiantou, pois o mesmo já se encontrava sem vida.


Alain Dellon em papel bíblico na igreja matriz de Araruna, década de 1990.
Fonte: Jairo Lima.
No seu sepultamento no dia seguinte o clima era de profunda comoção entre a grande multidão que compareceu para prestar suas últimas homenagens ao guerreiro Alain Dellon, ele que embora tenha partido de forma tão prematura deixou um verdadeiro legado cultural para nossa gente. 

Por: Jairo Lima (poeta e ativista cultural ararunense)

Palavras não transformam um mundo por completo, mas são como sementes, e as nossas palavras aliadas das nossas ações, nos formam e nos transformam em boas ou más pessoas, as boas pessoas e seus gestos jamais serão esquecidos, pois as suas sementes são colhidas e nossas palavras e ações se imortalizam nos bons corações. (Wellington Rafael).

Wellington Rafael


5 comentários:

  1. Eis uma história de vida que nos mostra que Araruna teve seus "heróis"e que nem sempre os políticos são os sujeitos históricos principais!!!

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  2. Incrível como a gente conhece o nome, mas não sabe a história.
    Os heróis de Araruna são aqueles que menos enxergamos.

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  3. Fomos vizinhos, amigos e companheiros de trabalho. Participei da vida de Dellon bem cedo quando ainda era adolescente. Fui aluno de sua escola de teatro, fui conselheiro, o ajudei em algumas de seus projetos... muito inteligente, teimoso, bravo e sonhador... deixou saudades e nunca mais vi alguem que fosse capaz de se doar tanto por uma causa...

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  4. Ele não morreu, pois os homens; como o meu primo se Eternizam, te amarei sempre Delon.........

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  5. Eu sou de Guarabira. Me emocionei com o texto. O admirava muito. Onde estiver, saiba que sempre lembro de vc.

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