terça-feira, 12 de março de 2013

Memórias de Araruna: Recordando Beja Maranhão

Benjamim Gomes Maranhão data indefinida.
Fonte: Escola Estadual Benjamim Maranhão.
Benjamim Gomes Maranhão é certamente um dos nomes que ficaram registrados na memoria dos ararunenses, por sua vida de dedicação ao trabalho e a confiança depositada em suas palavras e ações. Nascido no dia 25 de dezembro de 1906, filho de José Gomes Maranhão e Maria Júlia Maranhão, "Seu Beja" como era popularmente conhecido, casou-se em 1933 com Benedita Targino Maranhão (Dona Yayá), tendo como frutos da união os filhos: José, Carmésia, Wilma, Benjamin e Íris.

Pecuarista e agricultor, participou como um dos homens que serviram de pilares para a economia do Estado, que se modificava entre 1945-1950, deixando as culturas do  feijão e cana-de-açúcar para investir numa nova alternativa: o sisal, sendo a Paraíba á época a maior produtora nacional.

Sem tradição oligárquica, viu-se inserido no universo da política ararunense, conquistando espaços, se fortalecendo economicamente e assim como a fibra do sisal, foi ganhando força, para se tornar um dos maiores líderes políticos de Araruna, e de todo o curimataú.

Benjamim Gomes Maranhão "Seu Beja"

Molduras com as fotografias do casal Benjamim Gomes Maranhão
e Benedita Targino Maranhão (Beja e Yayá).
Benedita Targino Maranhão (Yayá).
Homem sério e pai zeloso, era também exigente com seus filhos, onde após as primeiras letras enviou seu filho José para um internato em João Pessoa, e as filhas para um convento em Monteiro. Embora fosse um homem dedicado com os compromissos do trabalho, era preocupado e atento com sua família.

O apoio e a confiança de Benjamin em seu filho José, era sentida por toda a família, cercado pelos carinhos da mãe D. Yayá, José via nas diversas lições transmitidas pelo pai como conquistar dignamente seus objetivos. O caminho? Seu Beja lhe ensinou: responsabilidade, compromissos, metas, humildade e valorização das experiências.

A relação do pai com o filho José, muito chamado de "Zé de Beja", era tão grande, que chegaram até a ser sócios da empresa "Benjamim & Filho", produzindo, negociando e exportando sisal da região do curimataú ao porto de Cabedelo e de lá para a Europa, onde atendiam em dois escritórios no centro de João Pessoa.

Benjamim Maranhão e o filho piloto José Maranhão. Década de 1950.
Fonte: Acervo fotográfico de Humberto Fonseca de Lucena.
Benjamim Gomes Maranhão com sua esposa Benedita Targino Maranhão, durante uma
cerimonia de casamento, em 1962. Fonte: Acervo de Wilma Targino Maranhão.

Em sua vida pública, Beja foi conhecedor de todo as possibilidades que a mesma proporciona, tirando proveito das suas experiências vitoriosas, assim como das derrotas, moldando-se cada vez mais como um homem integro e coerente, e se esforçando para repassar estes valores a seus descendentes.

Seu histórico eleitoral se inicia vencendo o pleito de 1955, conquistando o cargo de Prefeito de Araruna, obtendo 62,49% dos votos válidos, derrotando o saudoso Ernesto Targino da Costa Moreira. Beja concorreu novamente em 1963 para prefeitura de Araruna, desta vez não logrando exito, numa disputa acirrada contra o então jovem Targino Pereira da Costa Neto. Targino obteve obteve 51,96% dos votos contra 48,04% dos votos válidos de Beja Maranhão.

Ex-prefeito de Araruna e Cacimba de Dentro, Benjamim Maranhão, década de 1950.
Fonte: Acervo de Humberto Fonseca de Lucena.

Persistente o "Velho Beja" que muito lutou em favor da emancipação de sua querida Cacimba de Dentro, antes distrito de Araruna, candidatou-se a prefeitura da cidade que ajudou a emancipar, derrotado no ano anterior em Araruna, Beja Maranhão se elege como 1º Prefeito de Cacimba de Dentro em 1964 pelo partido PTB, obtendo 65,23% dos votos válidos contra 34,77% dos votos sufragados a Mário Pequeno de Moura da UDN.

Encerrando uma exitosa gestão a frente de Cacimba de Dentro e com nome consolidado na região, retornou a política de Araruna em 1968. Beja decide ceder a "cabeça-de-chapa" para o médico Rivadávia Pereira Guedes, numa nova disputa pela prefeitura, indicando seu filho Benjamin Targino Maranhão (conhecido popularmente como Everaldo), como candidato a vice, a dupla do histórico MDB, então oposição, foi derrotada por Agenor Targino (prefeito) e Mentor Carneiro da Fonsêca (vice-prefeito), candidatos da ARENA. O MDB sufragou 46,59% dos votos, não sendo o suficiente para rebaterem os 53,41% dos votos que elegeram Agenor prefeito.

Prefeito Beja Maranhão (de chapéu) e Deputado José Maranhão (primeiro á direita)
durante comício em Araruna. Década de 1960. Fonte: Rodriguez; Castro. 2009).
Participante ativo da política partidária, se mostrou um grande um líder, conseguindo resultados inclusive nos bastidores. Imperioso se destacar o famoso episódio do "Racha dos Targino", quando Benjamim retirou sua candidatura como deputado estadual em favor do filho José Maranhão, grande líder político á época José Targino ex-prefeito do município, foi contra, queria indicar seu genro Celso Novaes. Resultado: diante do estimulo e confiança depositados no filho, Beja Maranhão venceu, indicou e elegeu o jovem José Maranhão como deputado estadual em 1955, era esta a força que ele precisava para o inicio de uma grande carreira política que extrapolou as próprias dimensões que o Velho Beja visionou.

Tradicional evento politico em Araruna, em frente ao antigo armazém de Seu Beja, demolido
para abertura da atual rua Benedito Fialho, após 1966.  Fonte: Acervo de Wilma Targino Maranhão.
Benjamim Maranhão foi uma grande base de apoio da família e amigos em momentos difíceis, como no episódio da cassação do deputado José Maranhão pela Ditadura Militar, além de perseguições e retaliações políticas, onde o próprio Beja foi preso e escoltado de Araruna até João Pessoa, onde após chegarem foi imediatamente solto. Segundo depoimento de José Maranhão em 2009, sobre o episódio, o mesmo nos diz:
  "Meu pai não dera e qualquer motivo para ser preso. Não cometera nenhum ato subversivo, não estava armado, não fez nenhum movimento de incitação da população contra o regime. Tudo porque ele era o pai de um deputado que não era bem visto pelo golpe de 64. O que queriam era me atingir."

Seu Beja tinha como uma de suas características a voz rouca e os pausados momentos de reflexão, seguidos por ensinamentos, era como uma pilastra de sustentação, onde sua estima pelo trabalho era regada com austeridade e rigidez, sua solidariedade era sentida por todos que se faziam presentes em seu meio, seja na cidade ou no campo, em Araruna ou municípios que recebiam sua influência.

Evento político com a presença de José Targino Maranhão e seu pai o Prefeito Benjamim Maranhão, em 1954.
Fonte: Acervo de Wilma Targino Maranhão.

Comício em Araruna, com a presença de Ruy Carneiro (orador), José Maranhão (terceiro da esquerda para a direita), Beja  Maranhãoquase de costas  (segundo da direta para á esquerda). Década de 1950. Fonte: Rodriguez; Castro. 2009).

Sua generosidade era tamanha que corriqueiramente ouve-se ainda falar em sua bondade e na firmeza de seu caráter,  Beja Maranhão era alguém em quem se podia confiar, onde conterrâneos e amigos mais próximos o visitavam sem cerimonia em sua residência, ou com seus carros lotados de tantas pessoas, em caronas, onde fazia questão de preencher todos os espaços possíveis, para alegria sobretudo das crianças que se amontoavam em cima dos carros.

O desprendimento de Seu Beja das ""coisas materiais" era sobreposto por uma solidariedade que não media dificuldades, percebedor da nobreza das causas humanas, construiu em Araruna no ano de 1954 o Hospital e Maternidade Maria Júlia Maranhão (homenagem a sua progenitora), onde atualmente prestes a completar 60 anos de funcionamento, a unidade hospitalar ainda é o maior centro hospitalar da região, mesmo mediante dificuldades financeiras segue firme, assim como a vontade de Beja de realiza-lo, no atendimento das causas da saúde.

Prefeito Benjamim Maranhão, Francisco Soares de Oliveira, deputado José Maranhão e populares,
introduzindo imagem de N. S. de Fátima no Hospital e Maternidade Mª Júlia Maranhão.
Década de 1950. Fonte: Acervo fotográfico de Humberto Fonseca de Lucena.  
José Maranhão e seu pai Benjamim Maranhão, durante inauguração do Hospital e Maternidade Maria Julia Maranhão, em 1954. Fonte: Acervo de Wilma Targino Maranhão.
Hospital e Maternidade Maria Júlia Maranhão, fundado por Beja Maranhão em 1954.
Fonte: Acervo fotográfico de Humberto Fonseca de Lucena.

Seu Beja é lembrado sempre como um homem de posições firmes, severo com o trabalho, solidário e responsável.

Em seguida, breves testemunhos de pessoas que conviveram com ele: 
  • Carmésia Maranhão Leite: "Meu pai era capaz de dar a roupa do corpo para acudir a necessidade de um amigo." (RODRIGUEZ, CASTRO, 2009).
  • Targino Pereira da Costa Neto (ex-adversário político): "Beja era um homem honesto e trabalhador, as vezes arengueiro, mas sempre um homem de boa vontade."
  • Bento Agripino Macêdo (ex-funcionário): "Era um grande homem...sem sombra de dúvidas junto do filho é um dos maiores nomes de Araruna na história."
  • Adalberto Targino: "Um predestinado ao trabalho. Intuitivo nos seus arrojos, plantando arvores, semeando amigos [...] e seguidores que se estendiam de Araruna a Cacimba de Dentro." (RODRIGUEZ, CASTRO, 2009).
Seu Beja incentivou José Maranhão á carreira política, retardando o objetivo do filho em se dedicar a paixão da aviação, de certa forma, o "Velho Beja" foi o grande apoio para o filho alçar voos maiores na política, embora tenha chegado a presenciar a filha Wilma Maranhão se eleger prefeita de Araruna em 1976, não teve oportunidade de ver a volta por cima de José Maranhão, após o fim da Ditadura Militar,  onde ocupou os cargos de deputado federal, vice-governador, governador da Paraíba três vezes e senador da república.

No final da década de 1960, aconteceu algo inesperado, após uma insatisfação na compra de um trator, Benjamim tentou desfazer o negócio, tendo um pequeno comércio no município de Belém como palco de uma acalorada discussão, surgiu uma situação extrema, o vendedor do trator se alterou e alvejou Benjamim com um disparo de três tiros a queima roupa, um destes disparos atingiu o olho, o que lhe causou uma cegueira, briga apartada, retornou a Araruna com os lamentos do acontecido. Em 1º de dezembro de 1977, aos 71 aos de idade, acometido de uma árdua batalha pela preservação de sua saúde, faleceu Beja Maranhão. Sua morte foi relatada em crônica do historiador Gonzaga Rodriguez (2009):

"Que homem é esse, para quem se encheram as estradas do brejo e do curimataú ao aviso da sua morte?
Fazia política, geria municípios, era ouvido e solicitado, mas o que era mesmo era agricultor. Agricultor nos modos, nos compromissos, o comportamento do homem em estreita coerência com o da terra. Se em se plantando nela tudo dá, dava-se o mesmo com Beja. Botou enquanto pôde para os milhares de mãos de Araruna, Tacima e Cacimba de Dentro. O povo confiava nele como se confia num ano bom de inverno [...]."


Seu Beja foi por diversas ocasiões homenageado, denominando  ruas e escolas em Araruna, Cacimba de Dentro e até mesmo Belém,  uma Policlínica em Araruna, é o patrono da Escola Estadual Benjamim Maranhão, assim como o Jardim Botânico Benjamim Maranhão, na Mata do Buraquinho em João Pessoa, além de ser o grande patriarca do clã "Maranhão", conhecido em todo o estado da Paraíba, tendo como herdeiros políticos os filhos José e Wilma, e os netos Olenka e sobretudo Benjamin, ou simplesmente "Beijinha", que ostenta no nome a força do memorável Benjamim Gomes Maranhão.

Painel da E.E.E.F.M. Benjamin Gomes Maranhão em Araruna/PB.
Fonte: Rafaella Santos, 2013.
Homem austero e coerente, sem rancores no coração, Beja Maranhão foi sobretudo um homem querido, seu exemplo, assim como uma semente, foi plantado e rende bons frutos, sua confiança e responsabilidade certamente fazem parte de bons momentos das Memórias de Araruna.


Wellington Rafael

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Referências:
RODRIGUEZ, CASTRO. José Maranhão - Uma vida de coerência. 2009. Paz e Terra.
Sistema Histórico de Eleições - TRE/PB: http://www.tre-pb.gov.br/she/pages/consulta/pleito_listar.jsf

6 comentários:

  1. Belo artigo. Só faltou escrever que ele surgiu na política durante um período de cultura política clientelista, no processo de redemocratização do Brasil. O voto do cabresto tinha sido findado, mas os currais continuavam, o carisma passou a ser a principal arma de conquista dos eleitores daí a "santificação" e a força simbólica do seu Beija até os dias atuais, devido a seu carisma. Tirando a parte romanesca do artigo de louvação a um "herói" (por isto que é Belo), parabéns pelo trabalho!

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  2. Agradeço pela contribuição caro Márcio, só faz enriquecer o trabalho. O quadro "Memórias de Araruna" me surgiu com o intuito de apresentar atores/personagens históricos ararunenses, não me aprofundo em todas as questões por ser um "breve histórico", meu objetivo maior é apresentar o personagem e dar acesso as pessoas terem informações sobre eles de forma corriqueira sem tanto aprofundamento, mas com qualidade. Certamente você é feliz ao citar o "carisma" de seu Beja, sem dúvidas foi uma peculiaridade que em muito lhe serviu para aumentar sua popularidade,no entanto, não o trato como "herói", pelo contrário, o despido da alcunha de homem poderoso, certamente cito sua trajetória política e empresarial, mas, tento demostrar o quanto sua simplicidade nos afazeres cotidianos como pai de família, agricultor e homem simples o tornam uma coluna de apoio e confiança da família e amigos, e como sua lembrança ainda é cultivada entre os ararunenses.

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  3. Faz um artigo de quem esta vivo também, minha vó Lourdes Cavalcante, abraços!

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  4. Wellington, vc teria como informar o nome de todos os filhos do Sr Targino Pereira da Costa além do Major Pedro, coronel Gino e padre Targino?

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  5. EXCELENTE BILOGRAFIA E ILUSTRAÇÃO FOTOGRAFICAS EXPLENDIDAS > BELO TRABALHO, MEU JOVEM > TRABALHO IRREPARÁVEL .... PARABENS... COM MEU FRATERNO E CARINHOSO ABRAÇO ESPERO, EM DEUS QUE CONTINUE A GARIMPAR A HISTORIA DE ARAURNA, ATRAVES DOS TEMPOS.... O ALICERCE DO FUTURO, É O QUE SE SEMEIO, NO PASSADO....COM ADMIRAÇÃO E CARINHO, JOSENTE DANTAS

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  6. Obrigado pelos conhecimentos passados!
    Meu avô e meu pai são do Sítio Salgadinho, hoje município de Riachão, mas que na epépo pertencia a Araruna. Cresci ouvindo história dos Targino, Maranhão e outros influenciadores da época.

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