sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Memoria Viva: trajetória de vida de Dona Lourdes Cavalcante


Maria de Lourdes Cavalcante de Macêdo
Maria de Lourdes Cavalcante de Macêdo nasceu aos 02 de agosto de 1926, embora em seus documentos constem no dia 03, em Araruna/PB, na propriedade denominada "Lagoa dos Homens", filha do senhor Manuel Bezerra Cavalcanti e da senhora Antonia de França Cavalcante.

Dona Lourdes conta que suas maiores recordações que guarda de seus genitores são que, era  muito ligada ao pai, Manuel Bezerra Cavalcante, bisneto de Feliciano Soares do Nascimento considerado "fundador" de Araruna, sendo seu pai um homem trabalhador que nas horas de descanso tinha ao seu lado sempre uma bíblia e um dicionário, era carapina (carpinteiro), fazia móveis, instrumentos musicais, sabia tocar rabeca (violino), costumava reunir os vizinhos na Lagoa dos Homens para os evangelizar, tendo sido também professor particular em Araruna. De sua mãe recorda sobretudo que era costureira dedicada ao trabalho doméstico, gostava de ler, era uma pessoa recatada.

D. Lourdes foi a penúltima filha de 10 irmãos, na ordem: Severino, Alcina, Luiz Gonzaga, Francisco de Assis, João, Antonina, Maria, Alvaro, Lourdes e Odete. Após sua infância na propriedade "Lagoa dos Homens", sua família foi morar nas proximidades da "Estrada Grande" em 1935, atual PB-111, que liga Araruna á Cacimba de Dentro, Lourdes até então possuía 8 anos de idade.

Foi alfabetizada a principio em casa pelos pais, em seguida estudou na primeira escola pública do sítio Bernardo, com a professora mista rudimentar Veny Torres. Deste período recorda que a educação era mais rígida, e levada mais a sério, uma simples visita do diretor chamado de inspetor á época, era motivo de grande euforia, e se deveria caprichar para tudo estar em harmonia e gerar contentamento no mesmo. Dona Lourdes recorda ainda, que durante os Governo Provisório, Constitucional e Estado-Novo do presidente Getúlio Vargas, os professores eram nomeados, e que só alguém com grande envergadura ética e moral era escolhida para lecionar.

 Lourdes Cavalcante
Após estudar na pequena escola do sítio Bernardo, a jovem Lourdes estudou no Grupo Escolar Targino Pereira, entre 1938 e 1940, onde concluiu o 3º ano, com a professora Jarina Nunes de Carvalho. Teve como colegas de classe entre muitos outros: Almir Carneiro da Fonseca e Antonio Fialho Moreira. Recorda que a carteira escolar de sua época estudantil era uma bancada para dois alunos (as), que possuía em seu centro uma parte funda, de onde era colocado o tinteiro, do qual se extraia a tinta com uma caneta de pena.

Para Dona Lourdes a educação era levada de fato a sério em seu tempo estudantil, pois cita por exemplo, o processo de conclusão de curso, onde uma mesa examinadora avaliava os alunos concluintes, fizeram parte de sua banca autoridades como o Padre Severino Cavalcante de Miranda, o Prefeito Demósthenes da Cunha Lima, o Tabelião  Antonio Carneiro, além de um oficial de justiça.

Lourdes Cavalcante durante cerimonia de casamento. Data indefinida.
Luis Lucena de Macedo e Dona Lourdes durante confraternização de um casamento de seus irmãos. Data indefinida
O casal Lourdes Cavalcante e Luis Lucena
Neste período, Lourdes Cavalcante conheceu seu futuro esposo o senhor Luis Lucena de Macêdo (in memorian), 3 anos mais velho do que ela, quando sua irmã Maria casou-se com Aluízio, irmão de Luís. Fazem parte das reminiscencias de D. Lourdes seu namoro com Luís, onde se era costume rodearem os arredores do Velho Mercado (atual Centro Cultural), neste período Araruna não possuía energia elétrica, sua iluminação era feita por tochas penduradas por hastes, que iluminavam os caminhos na cidade, além disto não exista a atual praça João Pessoa, em seu lugar apenas um cruzeiro que atualmente está inserida ao lado direito da igreja Matriz.

Lourdes Cavalcante e seu esposo Luis Macêdo de Lucena em agosto de 1980.
Dona Lourdes sentiu que o casamento lhe trouxe grande liberdade, pois conta que em sua época liberdade não era palavra vivenciada pela maioria das moças, que não poderiam sequer passear se não estivessem acompanhadas, oportunidade de sair de casa somente com as mães e parentes próximos, para irem as missas e saírem da clausura.

Conta ainda, alguns fatos sobre seu casamento com Luís, o qual considerou como apressado, diante á época o mundo estar passando pela II Guerra Mundial, já era noiva aliançada, iria se casar em 1945, porém Luis, então com 21 anos completos, seria convocado para a guerra, resultado: apressaram o casamento para que Luís não precisa-se ir a guerra.

Fizeram o casamento civil em 16 de outubro de 1944, e o religioso em 22 de outubro de 1944. Porém, 7 dias após o casamento Luis,  foi convocado para a guerra, levou então seus documentos, foi ao quartel na capital do estado, apresentou-se ao coronel, e contou seu motivo de não poder servir na guerra, além de ter se casado recentemente estava com seu pai idoso e muito adoentado, fez a inspeção e foi dispensado, para que pudesse retornar a Araruna e cuidar de sua esposa e de seu pai.

Antiga residência de Dona Lurdes Cavalcante, na comunidade "Lagoa dos Homens".
Foto: Wellington Rafael da Silva.
Luis após a dispensa, retornou a Araruna e o casal após o casamento iniciou seu trabalho na agricultura. O casamento de Dona Lourdes Cavalcante com Seu Luís Lucena de Macêdo, popularmente conhecido como Luis dos Santos, em 1944, gerou os seguintes filhos: Heronides, Edmundo, Irene, Maria do Socorro, Luzia (Luza), Antonio, Alfredo, Luís Filho e Eliane.

Dona Lourdes e seu Luís com o casal Maria (irmã de Lourdes) e Aluízio (irmão de Luis)
Luis Lucena de Macêdo e Dona Lourdes em julho de 1981.
        
Os amigos Seu Ismar Macêdo e Dona Luci Macêdo (in memorian) com
Dona Lourdes Cavalcante, década de 1980.
Encontro da Família Macêdo, Dona Lourdes e filhos.
Luis Filho, Alfredo, Antonio, Edmundo, Heronides, Dona Lourdes ,Irene, Socorro, Luza e Eliane, após falecimento de seu Luis em 1986.
Dona Lourdes com Heronides (in memorian), década de 1990.
Lourdes com sua irmã Alcina e o filho caçula Luís Filho.
Dona Lourdes relembra com emoção quando em 1946, o lojista de tecidos Joaquim Ferreira, de grande influencia política, ofereceu-lhe a oportunidade de lecionar no primeiro curso supletivo da cidade, onde prontamente aceitou e trabalhou por 7 anos, até 1952. Considera seu momento como educadora como de muita alegria, e uma satisfação imensa, lembra ainda que ainda mais jovem com apenas 13 anos, havia trabalhado evangelizando, catequizando, na Escola Supletiva de Lagoa da Serra.
Sentia que Deus havia lhe dado uma missão na vida, sentiu tamanha emoção e gratidão por estar trabalhando como educadora, que dividiu totalmente seu primeiro pagamento com pessoas pobres, que se encontravam em estado de calamidade.

Após isso, passou um período afastada da sala de aula, Lourdes retornou a trabalhar lecionando quando o líder político Benjamim Gomes Maranhão lhe deu uma nova oportunidade de trabalhar na mesma escola, durante o governo de João Agripino, que iniciou-se em 1966. Obrigações familiares e cuidado com os filhos a afastaram varias vezes do oficio de lecionar, mas seu esforço era sempre reconhecido. D. Lourdes lembra da grande euforia com que seu filho Heronides que na época possuía 12 anos, corria em sua direção com uma portaria  nas mãos, contendo uma terceira oportunidade de trabalho, desta vez concedida pelo jovem Deputado Estadual José Maranhão.

Os filhos de Seu Luís dos Santos e Dona Lourdes aprenderam sobre os negócios do campo com o pai divinamente, observando e trabalhando. Foram criados com proteção, amor e sobretudo aprendendo os valores da vida, como ética e respeito.

Dona Lourdes Cavalcante sentia que tinha uma missão de "distribuir alegrias", principalmente com os idosos e as crianças, para formar um clima de prosperidade e evolução, esta missão a levou a conhecer o Espiritismo, e com este pensamento foi a João Pessoa, onde conheceu o presidente da Federação Espirita Paraibana, Laurindo Cavalcante de Araujo que a orientou  através do evangelho. Iniciaram-se assim os cultos do evangelho em sua residencia, construída em 1952, no Sítio Amargoso estrada para o Sítio Jirau, onde o Senhor Luís Macêdo buscava as pessoas em sua caminhonete para assistirem ao culto e depois os deixava os de volta em casa. Este fato porém, não agradava ao Padre Joaquim de Sousa Simões, então pároco de Araruna, que ficava insatisfeito com a participação de católicos nestes cultos.

Lourdes Cavalcante entregando presente ao espirita Chico Xavier na década de 1980.
Dona Lourdes, com professora e alunos da Escola Bezerra de Menezes em 2011.
Dona Lourdes cortando bolo no aniversário e 25 anos da Associação
Espirita Kardecista de Araruna em 2000.
Em 1975, Laurindo Cavalcante autorizou a criação da Associação Espírita Kardecista de Araruna, fundada por Luís Lucena de Macêdo, onde também fora criada a Escola Bezerra de Menezes. Dona Lourdes relata que um médico de João Pessoa, chamado Luis, disse que ela e seu esposo Luis Macêdo de Lucena, eram almas gêmeas reencarnadas, por isto tanto companheirismo, tanta compreensão, amor e dedicação. Porém, no ano de 1986, Dona Lourdes ficou viúva, após o falecimento de Seu Luís, ausência esta muito sentida por ela e toda família, que recordam saudosamente do grande pai, esposo e amigo de todas as horas que o sempre foi segundo Dona Lourdes.

Em sua trajetória fez muita viagens, conheceu muitas pessoas e lugares, aprofundou-se em conhecimentos, guardando porém, com bastante carinho a recordação das visitas as cidades de  Uberaba, Mariana e Ouro Preto, em Minas Gerais, onde conheceu o grande ícone do espiritismo brasileiro Chico Xavier.
Dona Lourdes em Uberaba/MG, posando para foto provando da água benta da fonte. Década de 1990.


Dona Lourdes ao centro, o filho Heronides a sua esquerda entre outros, no Cristo Redentor/RJ na década de 1980.
Para Dona Lourdes, a alma cultiva e se desenvolve através de nossos atos, conquistando e adquirindo experiencias, sendo ela: "a fonte divina da partícula de Deus em nosso corpo passageiro vivo." 
A sua trajetória de vida é uma verdadeira testemunha vigorosa de fatos e acontecimentos da história de Araruna, do estado e do país. Acompanhou por exemplo, desde menina as vindas de Frei Damião a cidade, em suas andanças pelo Nordeste brasileiro; recorda de Araruna como a chamada "Rainha do Feijão Mulatinho", onde cerca de 50 caminhões de feira saiam todos lotados da cidade, tamanha a riqueza da safra de Araruna; acompanhou o processo de urbanização e modernização de Araruna, saindo de arruados primitivos para se tornar segundo ela: "Uma Araruna evoluída e beneficiada, por instituições como hospital, postos médicos, universidades, sendo justa e sincera as administrações de seu filho José Maranhão no seu olhar para com a sua terra."

Dona Lourdes Cavalcante se disse uma mulher realizada e agradecida por tudo que foi concedido em sua vida, externando as seguintes palavras:

"Ato de gratidão a Deus, por ter nascido neste pico da Serra da Borborema, que é a Serra de Araruna, doando a ideia de construir, desenvolver de amar e de se amar, só se ama quando se doa no ato, sabendo que o amor é Deus, para usá-lo em todos os momentos de nossa vida.
Agradeço aos pais que me educaram, pelo esposo que tive, pelos meus filhos, netos, bisnetos e trinetos, pelo sogro que tive e me recebeu como uma filha. Enfim, pelos amigos e por ter nascido em Araruna e pela missão que desempenho." 


Dona Lourdes Cavalcante, completou hoje 87 anos de idade, lúcida, empenhada nos seus afazeres domésticos, em suas costuras, na Escola Bezerra de Menezes, na Associação Espírita Kardecista de Araruna, e sempre com o coração aberto para compreender, orientar e adquirir mais conhecimento, além de acolher seus filhos, netos, bisnetos e trinetos, e incontáveis amigos, reside na Avenida Coronel Pedro Targino, nº 78 no centro de Araruna.


2 comentários:

  1. Sou muito suspeito ao escrever aqui sobre uma matéria que centraliza a pessoa de minha vó. Sou um neto muito orgulhoso pela vó que tenho. Mas Wellington, parabéns pela pesquisa empírica e pelo objeto de pesquisa. Araruna possui pessoas extraordinárias que extrapolam o mundo da política e Dona Lourdes Cavalcante é uma delas, pois como você mesmo afirmou, ela é uma "testemunha vigorosa de fatos e acontecimentos da história de Araruna". Matéria de grande maestria e como historiador e neto de pessoa tão querida em Araruna, lhe parabenizo pela matéria que transformou os 87 ano de vó Lordeus numa comemoração mais festiva e magnífico. Abraço!

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  2. Me sinto orgulhoso de ser participante da história de minha vó Lourdes Cavalcante e saber que ela faz parte da história de Araruna e do seu desenvolvimento, uma pessoa que muito contribuiu para a causa social e politica dessa cidade. Obrigado caro wellington pela pesquisa e por todo seu empenho, meus agradecimentos. Luis Lucena de Macedo Neto

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