quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Memórias de Araruna: Recordando Tota do Camucá

Antônio Fernandes Cordeiro
Antônio Fernandes Cordeiro, nasceu aos 21 de abril de 1921, em Araruna/PB, no sítio Camucá, filho de Luís José Fernandes e Maria Augusta Cordeiro. Popularmente conhecido pela alcunha de "Tota do Camucá", em referência ao sítio onde nasceu e  viveu parte da vida, sendo um dos maiores expoentes pela luta dos direitos dos trabalhadores rurais na história do município. 

Perdeu sua mãe muito jovem, aos 3 anos de idade, quando a mesma, deu á luz a seu único irmão, que também teve vida curta, morrendo aos 3 anos, quando Antônio estava com 6, tendo sido desta maneira criado pelo pai Luís José. 

Estudou apenas o referente ao antigo primário, em um grupo escolar no sítio Mata Velha, tendo a senhora Veny Torres, como uma de suas professoras.

Com 16 anos, casou-se com Rita Pontes da Costa, cujo enlace gerou 11 filhos: Maria Augusta, Maria Olívia, Maria Aparecida, Bernadete, Auta Mira, Antônio, João, Assis, José, Miriam e Joana Darc. Porém, Dona Rita faleceu em 1961, aos 40 anos de idade.

Com a morte da esposa, Antonio casa-se com uma irmã mais nova dela,  Stela Maris, com quem teve mais 9 filhos: Luis Carlos, Luiza, Pedro, Márcia, Marcos, Teresa, Lucrécia, Emiliano e Quitéria.

Casa que Tota residiu no sítio Camucá, construída por seu avô.
Foto de março de 1982. Fonte: Acervo da família Fernandes. 
Durante a década de 1940 deixa o sítio Camucá e vai morar em Santa Cruz/RN, onde viveu por quase uma década, retornando á Araruna por volta dos anos 1950, onde passa a cuidar do pai idoso e alguns tios, morando até 1971 no sítio Camucá, de onde o deixa novamente, para residir no sítio mais próximo á cidade,  denominado "Lagoa dos Homens", e posteriormente, 1975,  na zona urbana, mais precisamente na Avenida Semeão Leal, popular "Rua da Avenida", entretanto, não se desvinculando da zona rural. Esta ida á cidade está em parte ligada á um melhor acesso de seus filhos á escola, mas constantemente visitava seu imóvel rural. E, por volta de 1987, volta a residir em sítio, na Lagoa dos Homens, até os últimos dias de sua vida.

Antônio Fernandes no Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Araruna, sentado ao fundo Ernany Moura.
Seu Tota sempre trabalhou como agricultor, e sempre esteve envolvido com as causas de sua classe trabalhista, dentre uma de suas maiores preocupações era de conseguir mobilizar os trabalhadores rurais a garantirem direitos de receberem sua aposentadoria, inicialmente, meio salario mínimo, e posteriormente um salario inteiro.

Como os trabalhadores rurais não foram contemplados com os direitos trabalhistas garantidos pelo presidente Getúlio Vargas em 1943, que abrangia apenas os trabalhadores urbanos.

Apenas a partir de 1963, é que foi criado um Estatuto do Trabalhador rural, que lhes asseguravam direitos como indenização, aviso prévio, salário, férias, repouso, entre outros, mesmo assim, muitos destes direitos apenas vigoraram de fato, a partir da Constituição Federal de 1988, até lá houveram muitas lutas.
                                               
Mediante o envolvimento com estas causas, acabou se tornando o fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Araruna, em 26 de agosto de 1972, mas sendo reconhecido somente em 1975.

Como um líder das causas rurais se envolveu muito fortemente nestas questões, durante a década de 1980, sobretudo, ao que se refere a Reforma Agrária, neste período participou de diversos congressos em Brasília, afim de discutir melhorias para a vida dos trabalhadores do campo, juntamente com outros sindicalistas do estado e de outras regiões.
Geraldo Ferreira Leite, Monsenhor Joaquim e Antonio Fernandes no
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Araruna.
Seu Tota com membros do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Araruna/PB.
 Data indenifida. Fonte: Acervo da Família Fernandes.
Antonio Fernandes "Tota", o primeiro a direita em pé, ao lado de pessoas ligadas a  sindicados de
trabalhadores rurais em Brasília. Foto do final dos anos 1970.  Fonte: Acervo da Família Fernandes.
Tota do Camucá, o quinto em pé á esquerda, em um dos congressos que participou em Brasília,
 no final dos anos 1970. Fonte: Acervo da Família Fernandes.
Neste período, conheceu melhor movimentos como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), Movimento dos Sem Terra (MST), além de conhecer o líder sindical em grande ascensão em âmbito nacional, Luís Inácio Lula da Silva, futuro presidente da república, que chega a visitar sua residência em Araruna, na Rua da Avenida, por volta de 1982. Mediante estas aproximações, Antonio Fernandes funda o Partido dos Trabalhadores (PT), em Araruna - PB.

Tota conhece ainda a luta de Margarida Maria Alves, expoente pelas lutas no campo, assassinada aos 12 de agosto de 1983, em Alagoa Grande/PB, prevendo sua morte com seu discurso constante: "Da luta não fujo. Prefiro morrer na luta do que de fome", sua morte sensibilizou bastante Tota, que foi ao sepultamento de Margarida prestar sua solidariedade a sua pessoa e a causa que defendia, pois não era algo tão simples, este crime chamou a atenção do Brasil, para o clima de tensão entre os sindicatos e os latifundiários do Agreste Paraibano. 

Discurso de Margarida Maria Alves em Guarabira, com a Igreja de Nossa Senhora da Luz ao fundo, evento que contou com  a participação de Luís Inácio Lula da Silva. Tota do Camucá também se faz presente, sendo o primeiro a direita. Fonte: Diocese de Guarabira.
Por seu envolvimento cada vez mais forte com a luta pelos direitos dos trabalhadores rurais e Reforma Agraria, e organização de áreas de assentamento, acaba sendo preso por envolvimento em conflitos de terra em 1983, conseguindo um habeas corpus do criminalista paraibano renomado Geraldo Beltrão. 

Após notar uma espécie de favorecimento de algumas pessoas que lideravam movimentos como CUT e MST, sobre os mais pobres, decidiu se desfiliar do PT, onde a política local o trouxe a uma candidatura a vereador em 1988, já pelo partido do PMDB, da candidata a prefeita Wilma Maranhão, Tota entretanto não conseguiu se eleger, obtendo apenas 45 votos.

Seu Tota discursando em sua campanha para vereador em 1988, juntamente com a prefeita Celeste Torres,
 e Wilma Maranhão, eleita prefeita naquele pleito. Fonte: Acervo da Família Fernandes.
Possuidor de um incontável número de afilhados, geralmente filhos de trabalhadores rurais, Tota sempre dedicava muito de seu tempo em ajudar os mais necessitados, fazia feiras constantes para comprar alimentos aos carentes, inicialmente no comércio de Socorro Macêdo, e depois no de seu Zé Pereira, onde se observava que sempre suas contas ficavam a mais do que o esperado, por sempre extrapolar o limite das compras no comparativo a manutenção de sua própria casa e estas ajudas. 

Antonio Fernandes Cordeiro possuía como hobby, o gosto pela leitura, era assinante de jornal e de revistas, tinha em sua casa várias estantes com livros que comprava constantemente, hábito que era observado pelos filhos e pessoas mais próximas. Tinha um óculos para leituras, e sempre que o esquecia em algum lugar por desatenção mesmo assim não ficava sem leitura, pois pedia a sua esposa Stela Maris que lê-se para ele.

Mesmo possuindo pouca escolaridade, era possuidor de muito conhecimento e cultura, que foram sendo adquiridos ao longo de sua vida.  Era um orador nato, fato este, comprovado em um dos congressos que participou em Brasilia. Sendo escolhido pelos seus colegas para representar à Paraíba em seu discurso, Tota dispunha de 10 minutos, porém, com o oportuno discurso que agradou aos presentes lhe foi concebido mais tempo, falou por cerca de 40 minutos, e ao seu término foi muito prestigiado em aplausos por um público de pé.
Seu Tota na velha casa do Camucá, com sua filha Auta Mira, os netos Filipe e Conceição,
e em pé os filhos Teresa e Marcos. Foto de 1982. Fonte: Acervo da Família Fernandes
Antônio Fernandes Cordeiro, data indefinida.
Fonte: Acervo da Família Fernandes.
Antônio Fernandes Cordeiro, em fotografia de 1976.
Fonte: Acervo da Família Fernandes.

Caderno para resolução de problemas utilizado por Antônio Fernandes (Tota).
Com a datação na capa de 2/10/1933. Detalhe para o sobrenome invertido. Fonte: Acervo da Família Fernandes.


Seu Tota com a esposa Stela Maris, no "terreiro" de casa no sítio Lagoa dos
Homens.Fotografia de 1997. Fonte: Acervo da Família Fernandes. 

Deste modo, verificamos a biografia de um homem, que lutava por um ideal, uma causa social, alguém que se compadecia pelo mal estar alheio, qualidade esta que raramente se encontra em sociedades tão egoístas. Antonio Fernandes Cordeiro, ou simplesmente Seu Tota, faleceu aos 13 de novembro de 2000, deixando um legado de amizades e trabalho, assim como boas recordações de sua família, esposa, filhos (as), netos (as), sobretudo por ser um pai e avô muito presente na vida de todos que faziam parte de sua vida.

Após sua morte, o filho Marcos, vice-presidente do sindicato assume o posto, conseguindo se eleger nos anos seguintes.

Tota sentia muita falta de seu pai Luís José, a quem teve grande referencia como homem, aliando essa admiração através da escrita, dentre seus escritos encontramos um dedicado á ele, mas que claramente é lido com o mesmo sentimento do autor, desta vez por seus filhos e pessoas próximas.

I
Meu pai, já que não te vejo.
Fugiste de mim pra eternidade,
Resta-me doar-te uma grinalda,
Como prova de amor e saudade.
II
Foste um exemplo de pai,
Foste amigo sincero e bom,
Já não te vejo em lar,
Mas no céu mereceste do dom.
III
Queria sonhar contigo à noite,
Ver teu semblante iluminado,
Abraçar-te doar-te uma grinalda,
Como prova de amor e saudade.


*Externo meu agradecimento á professora Teresa Cristina Fernandes e a Stela Fernandes Cordeiro, filha e neta, respectivamente, de Antônio Fernandes Cordeiro, pelas informações e facilitação ao acervo fotográfico utilizado

Referência: Zenilda Paida. "Trabalhador Rural". http://www.conteudojuridico.com.br/?artigos&ver=2.36550

Um comentário:

  1. HISTORIA DE UM GRANDE GUERREIRO ARARUNENSE BOAS RECORDAÇÕES PARA AQUELES QUE CONVIVERAM COM ESSAS PESSOAS ABENÇOADA POR DEUS.PARABÉNS WELITON

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